Flex Mentallo- Parte 2

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Na segunda parte (leia a primeira parte aqui) a  do texto Matheus Oliveira continua a escavar os  veios da ficção analisando aquele que Grant Morrison vê como seu maior trabalho!

 A metalinguagem e “sutilezas” do roteiro e desenhos.

Grant Morrison já havia “brincado” com metalinguagem em Homem-Animal, de uma maneira mais simples e direta. Aqui ele faz mais que participar da história, se aprofunda em inserir história dentro de história, universo dentro de universo, realidade dentro da ficção e vice-versa.

Comparado a Flex Mentallo, A Origem (Inception, 2010), o filme de Christopher Nolan, é apenas uma premissa do que se pode pensar em termos de metalinguagem. A maneira como o autor a utiliza em Flex Mentallo é o que torna essa obra literalmente impossível de ser adaptada para outra mídia. Seria impossível ter a experiência equivalente lendo-se um livro. Em um filme, talvez mudando todo o cenário, substituindo Flex por um personagem de filme, Sage por um roteirista, talvez alguém conseguisse criar algo parecido, mas é pouco provável que se conseguisse algo equivalente ao se tentar colocar o personagem, criador e espectador no mesmo universo. Vamos a alguns detalhes:

  • No cinema, quando um personagem conversa diretamente com o espectador, se diz que ele “quebra a quarta parede”. Em Flex Mentallo isso acontece várias vezes. Na primeira edição, quando Flex está vendo TV, a parede atrás dele é feita de portas. Isso pode ser um indício de que, nessa história, não existem paredes, ou que elas podem ser atravessadas.
  • No último capítulo você descobre que Sage estava o tempo todo conversando o Fato quando ele aparece no Orelhão. Como sugere o nome do personagem, Fato representa o que é real, representa o leitor da história. Ou seja, você enquanto leitor faz parte da história, já que Sage está conversando com você, e sua existência na história é representada pelo personagem Fato. Há também o momento em que a garota com pele de leopardo está listando os integrantes da Legião das Legiões e quando chega a hora de citar o “Fato” e olha para você, quebrando a quarta parede.
  • A palavra mágica das cruzadas que o velho faxineiro deu para Flex parece ser, em primeira instância, SHAZAM, o que faz todo sentido: transformar um garoto fã de super-heróis em um verdadeiro super-herói. Mas no último capítulo, só são mostradas as últimas 3 letras da palavra que faltava: “M-A-N”. Se considerarmos que a palavra seja Nanoman, várias outras coisas a seguir farão sentido, porque Nanoman é a base da existência dos super-heróis, ou seja, representa as histórias em quadrinhos em si.
  • Wallace Sage é baseado na vida de Morrison, mas a versão mais sutil do escocês dentro dessa história é o faxineiro da escola abandonada. Ali você entende que ele é um velho leitor de quadrinhos, porque ele conta que quando jovem, passando por um corredor de metrô ele dá dinheiro ao mendigo, que é um escritor de histórias em quadrinhos (Sage), que lhe retribui com a palavra mágica, “A palavra que Deus falou e fez existir o universo e a consciência”. Se considerarmos que a palavra seja Nonoman (representando as HQs), faz sentido a “palavra” te dar um “universo”. O ato de dar as moedas representa o leitor de quadrinhos comprando uma HQ. Além disso, o faxineiro diz que via no mendigo uma versão futura de si mesmo, ou seja, o velho comprava quadrinhos e virou escritor, passando a “receber as moedas”. E por isso o faxineiro se diz o homem mais poderoso do universo, porque enquanto escritor, é ele quem faz o que quer com aquele universo. E é claro, o faxineiro é careca.
  • A frase “Trocar mais o peixe que a água” é uma analogia à realidades alternativas, onde cada peixe é uma versão diferente de uma mesma entidade dentro de um universo. flex2
    • Os dois túmulos pequenos presentes no velório da esposa do detetive são evidentemente de Nanoman e Minimiss. Talvez estejam ali apenas para mostrar que há uma ligação entre as “realidades”.
    • Com o já dito, a história inteira está cheia de homenagens a personagens clássicos.A “orgia de super-seres” representa uma relação geral dos diferentes tipos de super-heróis, várias referências podem ser encontradas ali, e nem todos do universo DC.
    • No meio da orgia, Flex, depois de fazer toda uma citação geral dos personagens diz: “É isso que me faz voltar sempre. É por isso e por não ter namorada”. Parece uma piada aos nerds “perdedores”, mas é também uma referência à própria adolescência do autor.
    • A orgia é também uma referência à sexualidade explorada nos quadrinhos. “No fim das contas é isso mesmo… Ninfetinhas suculentas de colante vermelho, telepatas tesudas desnudando tua mente… Fredric Wetham tava certo, caralho!”. Fredric Wertham foi psiquiatra que na década de 1950 protestava contra a suposta nocividade dos quadrinhos no desenvolvimento das crianças, com suas imagens de violência em massa, alusão ao sexo e drogas. Foi depois da publicação de seu livro mais famoso, Sedução do Inocente, que o Código dos Quadrinhos foi elaborado pelos próprios editores, que passaram a regular o conteúdo do setor e se autocensurarem.
    • Uma passagem que certamente permite inúmeras interpretações é aquela que um super-herói Limbo, da revista que Sage lia quando criança, é quem segura a mão do jovem quando ele se vê em uma situação que não entende muito bem, a lembrança em que o jovem Sage se vê em uma roda de crianças com uma “mini-explosão” ao centro, e uma delas com as calças abaixadas. Sage não sabe se aquilo era uma “casa de banhos”, se estavam defecando, se ele foi abduzido ou abusado. Em um momento dessa lembrança ele cita seu tio, o que nos leva a vários questionamentos… Talvez nem tenha sido inspirado em abuso em si, talvez seja só uma metáfora… não dá pra saber. Sage cita várias vezes o constante medo da guerra e como foi difícil para uma criança lidar com os acontecimentos em Hiroshima, e nenhum herói estava lá para salvar mundo. A lembrança de Sage desse momento confuso volta sempre em situações de tristeza e crise, como quando ele vê uma garota prestes a ser violentada por marginais e não pode fazer nada. Mas uma certeza é que esse momento representa os acontecimentos ruins que uma criança tem que lidar, enquanto o super-herói que segura sua mão representa as histórias de ficção que funcionam como uma espécie de refúgio para as tragédias da realidade.
    • “Bem vindo à… como vamos chamar? De onde vêm suas ideias! Lembrou?”, é o que diz Limbo segurando a mão de Sage. Talvez o autor queira dizer que inspiração para as ideias surjam com mais frequência em momentos trágicos, como na separação com a namorada, “sempre rende uma música, quanto mais na merda a gente ficar”. limbo
      • Na última parte o detetive encontra todos os heróis que participavam da orgia mortos e Flex não está lá. Ele escapou do massacre, assim como Superman foi um dos poucos que sobreviveram à Crise nas Infinitas Terras.
      • Outro momento interessante em que os personagem quebram a quarta parede é num quadro do final da história em que Nanoman e Minimiss estão olhando pra você e dizendo: “Te amo… sempre vou te amar. Meu Deus.”
      • No fim da história as lembranças de Sage voltam e os super-heróis voltam a existir no mundo real… ou talvez seja só um embuste do Embusteiro…

      Conclusão

      É uma pena que tantas pessoas não darão muito crédito à obra ao se deparar com um “musculoso de circo” na capa e uma contra-capa rosada dizendo: “Você! Compre esta edição agora ou a Terra estará condenada!”

      Enfim, Flex Mentallo é uma HQ para ser lida mais de uma vez. É uma história que pode simplesmente ser curtida pela sua trama principal ou, aos os leitores que assim permitirem, instigá-los a encontrar referências externas, mensagens ocultas, homenagens, etc.

      Terminei a história pensando em toda a metalinguagem tão bem construída que por alguns instantes me indaguei se não poderia ser real!… Lembro que a última vez que tive essa sensação foi ao assistir Matrix, que aliás, segundo Morrison, é um plagio descarado de Invisíveis, outra grande obra do Autor. Mas isso é outro assunto…

      “Ele teria me matado se não fosse o Flex. Acho que eu sabia disso quando o inventei. Acho que eu sabia quando era pequeno. O Flex nunca ia nos decepcionar.” No fim das contas, Flex Mentallo é mais que uma obra inspirada na vida do autor, é uma tentativa de expor quão importante são os quadrinhos na vida do leitor!… É uma declaração de amor aos super-heróis!Morrison-quitelly

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